( história )

quem é o Gabriel?

A história real: de desmontar brinquedos em Porto Velho à IA em produção. Sem arco higienizado, cicatrizes inclusas.

01

O menino que desmonta

Faziam rapport sem nunca terem estudado para isso.

Nasci há 29 anos, no dia 27 de janeiro de 1997, em Porto Velho. A fama na família veio cedo: um teimoso inigualável. A convicção e a curiosidade afloraram desde essa época. Eu desmontava, quebrava e recriava os brinquedos e objetos da casa a partir da imaginação, e tudo me despertava uma curiosidade infinita, principalmente entender como o mundo realmente funcionava.

Aos quatro anos, meu pai, que era representante comercial da BIC, às vezes trazia mostruários antigos de coleções passadas, canetas das mais variadas. Isso aumentava a minha coleção e plantou um pensamento: será que eu conseguiria ganhar algum dinheiro vendendo essas canetas, para comprar alguma revista ou brinquedo que eu queria?

Minha mãe me carregava, nos horários em que eu não estava na escola, para os atendimentos nas casas das clientes. Ela vendia roupa. No Brasil chamamos de sacoleira, porque carrega aquele saco gigante de roupas dos mais variados modelos até a casa das clientes. E eu ficava ouvindo as argumentações de venda. Meu pai e minha mãe eram vendedores excepcionais: faziam o que hoje chamamos de rapport sem nunca terem estudado para isso. Era intuitivo.

E eu? Porto Velho não tinha loja dos brinquedos que eu gostava, então eu pedia dinheiro ou juntava mesada para comprar na Ri Happy quando visitasse a família dos meus pais em Campo Grande. Se eu vendesse as canetas e juntasse mais, seria um dinheiro extra.

Em menos de uma semana, o dinheiro do lanche dos meus coleguinhas de classe virou parte das minhas economias para a próxima viagem. Não que fosse muito. O Gabriel de quatro anos não tinha a menor noção de quanto valia cada caneta.

02

A internet como escola

Respeitado não pela idade, nem pelo cargo: pelas ideias.

Lembro até hoje do meu primeiro computador. Final de 2001: meu pai trouxe uma máquina toda branca, colocou no quarto deles e montou, impecável, um setup nada modesto para a época. Eu achava interessante até o barulho que a internet fazia para ele começar a jogar.

Meu pai não fez faculdade, mas tinha habilidade com números, persuasão e uma hombridade fenomenal. Ali ele me mostrou que até em tecnologia era bom. Além dos jogos, claro. Ele começou a jogar CS. É estranho falar isso, mas meu pai, um representante comercial vindo de família humilde, trabalhando desde os seis anos, era absurdamente bom em jogo de tiro para a idade dele. As capacidades dele de aprender fora da zona habitual sempre me intrigaram.

Aos seis anos, quando ele migrou para o Chaser, fez um upgrade, montou um PC novo, e eu herdei o antigo. Comecei a jogar junto com ele. E, estranhamente, comecei também a navegar. Achava mágica a ideia da pesquisa: caía em fóruns e adorava ler. Foi assim que aprendi o que era um Cheat Engine, nada mais que um editor de memória, capaz de fazer meu personagem sair da velocidade comum para a ultrarrápida (meu pai não gostou, que fique bem claro).

Aquilo abriu portas específicas na minha cabeça sobre o que era possível. Numa viagem a Campo Grande, vi meus primos mais velhos jogando Tibia numa lan house. Era um dos maiores MMORPGs da época: comunidades enormes, gente em call por horas no TeamSpeak, muito role-play. Eu amava. E tinha uma facilidade absurda com aprendizado autoguiado, o que hoje chamo de bater cabeça: aprender no teste e erro, sem parar, até não ter mais nada para aprender. Ou pelo menos eu pensava assim.

Caí num fórum de servidores alternativos, e minha vida mudou. Em vez de só jogar, comecei a entender como montar o meu próprio servidor e a trazer vontades de desenhos, animes e mangás para dentro do Tibia. Modificava os blocos XML e os scripts Lua dos servidores, desenhava mapas e funcionalidades, fui me aproximando do C++. E entendi que ali, não importava o quanto eu batesse cabeça, eu nunca saberia tudo. Muitas vezes teria que pedir ajuda às pessoas do fórum, trocando conhecimento e sobrevivendo como comunidade.

Por incrível que pareça, isso não me frustrou. Só me guiou a querer conhecer mais. Passei dias inteiros nos fóruns e, aos 11 anos (por mais louco que isso soe olhando para trás), virei um dos quatro diretores do maior fórum brasileiro de servidores alternativos de Tibia, o XTibia. Nas calls de alinhamento, uma criança de 11 anos dava ordens a moderadores e community managers, e era respeitada. Não pela idade, nem pelo cargo: pelas ideias. Isso só me motivou a continuar.

Mas eu já não era a criança sem responsabilidades, e aos poucos o Tibia foi perdendo a graça. Deixei o cargo e segui tentando criar coisas que me dessem algum retorno financeiro. Criei servidores próprios de Tibia e de Ragnarok, bots, automações de looting e farming... É, não me orgulho tanto dessa parte. E rico eu não fiquei. Se ao menos eu lembrasse onde enfiei minha carteira de bitcoin...

03

Aprender vendendo (e apanhando)

Infelizmente, os scammers eram bons.

Aos 12 anos comecei a trabalhar alguns dias esporádicos na loja de acessórios de celular que meus pais tinham aberto, a To Go. A BIC tinha desligado todos os representantes. Meu pai foi o último, o que deu tempo de ele se preparar e embarcar num negócio próprio. Eu saía das atividades extracurriculares e ia direto para a loja: cada dia com pelo menos quatro horas de trabalho era recompensado, generosamente, com R$ 50. Na época, isso eram dois ingressos de cinema com pipoca e suco inclusos. Ou algum jogo novo, ou cash nos jogos.

De tanto notar que valia a pena pedir coisas da China para os meus pais, que viviam com problemas de novidades e fornecedores, fui entender como funcionava o mercado de importação chinês. Só que dessa vez eu queria investir o meu próprio dinheiro e revender para eles. Foi assim que todas as economias de dois anos do jovem Gabriel de 14 anos acabaram nas mãos de um scammer dentro do Alibaba. Baita lição. Que eu não aprendi direito, aliás.

Minha mãe queria que eu me dedicasse mais aos estudos, e eu não gostava da ideia. Acabei obrigado a frequentar aulas de reforço na melhor escola da região, mesmo com notas acima de 9,5. Eu era bom em fazer prova, em decorar o necessário antes da prova. Me arrependo um pouco de não ter sido a pessoa que queria aprender de verdade os conhecimentos gerais que uma escola brasileira proporciona a quem estuda por conta própria.

Só que o reforço não fazia sentido nem na cabeça da dona do lugar. Eu sabia tudo e explicava o raciocínio de forma exemplar, ajudando os colegas que realmente tinham dificuldade. Vendo isso, ela me convidou para dar aulas para outras turmas. O reforço tinha crescido demais e ela precisava de mão de obra “qualificada”. Comecei dando aula para turmas dois anos abaixo da minha e, quando vi, dava aula até para gente da minha própria turma, nas mesmas matérias que eu cursava.

Além disso, fazia sites e estruturava fóruns para os mais diversos mercados, ainda tirava dúvidas nos meus materiais do XTibia, e cada dia gostava mais de resolver problemas com software. Ou de fritar alguma placa dando bruteforce...

O dinheiro era bom, e me enfiei de novo em projetos ambiciosos. Dessa vez não queria trazer apenas acessórios: trouxe novidades como isqueiros de plasma e tecnologias de crowdfunding das mais diversas. Mas dei um passo maior que a perna e perdi grande parte numa tentativa frustrada de trazer iPhones para o Brasil. Outro golpe no Alibaba. Infelizmente, os scammers eram bons.

04

O operador

De 30 mil de prejuízo por mês a cem mil+ de faturamento.

Aos 15 anos fui fazer o último ano do ensino médio no interior de São Paulo. Nosso material em Porto Velho era do Poliedro, e a ideia era que, estando no celeiro do melhor material de vestibular do país, eu pudesse passar em qualquer faculdade. Isso na cabeça dos meus pais. Eu não tinha ideia de qual curso faria, nem se queria fazer faculdade. Mas o sonho deles era o diploma que eles nunca tiveram: os dois precisavam provar o tempo todo que sabiam das coisas, porque não existia um papel que comprovasse o amplo conhecimento e as habilidades que carregavam.

Nos anos seguintes foi balcão e projeto: To Go, importações, sites e fóruns, enquanto eu empurrava a decisão da faculdade. Em 2016 passei em Engenharia da Computação na FURG, a Federal do Rio Grande. Mas, voltando um pouco: eu nunca fui um aluno exemplar, e aos 16 anos fui diagnosticado com TDAH e superdotação. Alguém inquieto, obstinado e com fome da ação do mundo real, passar mais cinco anos dentro de uma instituição... tinha alguma possibilidade de dar certo? Talvez. Na cabeça do Gabriel daquela época, não.

Depois de um ano completo, tranquei e voltei para Porto Velho. Estava obstinado a ajudar meus pais na empresa de acessórios. Eles atravessavam uma falência dupla: a patrimonial e a do próprio casamento.

Assumi a pior operação e a transformei: de um prejuízo de 30 mil por mês a um faturamento de mais de cem mil, operando no azul, em seis meses.

Foi quando eu olhei para aquilo e me perguntei: será que as empresas também têm problemas que eu posso solucionar? Será que não é só a linha de código? O jogo? A dificuldade de alguém em entender uma matéria?

05

GEEKS: construir e perder

No final, o erro era meu.

Aos 20 anos, saí das empresas que ajudei a estabilizar para montar a minha, em outro terreno. Dinheiro juntado, carro vendido, me joguei em Campo Grande. Acho que por memória afetiva: eu gostava da ideia daquela cidade.

Convenci o conselho do shopping a liberar um ponto para um quiosque de acessórios, sem nem existir vaga para quiosque na época, muito menos para a área de acessórios, que parecia uma febre. Mas a GEEKS era outra coisa. Eu queria trazer o que não consegui dentro da To Go, e o sonho era maior: virar uma capitalizadora de crowdfunding de tecnologias novas, trazendo essas novidades para a realidade brasileira.

Foram seis anos e muitas batalhas. O Brasil nunca foi um lugar fácil de empreender, e eu sabia muito da linha de frente e pouco da linha de trás, da administração financeira e dos contratos.

Nesses seis anos criei uma marca que a cidade inteira e as vizinhas reconheciam. Viramos sinônimo de qualidade num mercado de commodities, onde qualquer banca de camelódromo também vendia acessórios. O faturamento só de acessórios era páreo para as nossas vendas de eletrônicos, e com três anos de loja eu estava cada vez mais perto do sonho.

E a tecnologia nunca saiu de cena: automatizei o fluxo de estoque e PDV até derrubar as rupturas em 95%, e comecei a treinar modelos de predição de demanda para decidir compra antes da falta. O ML que mais tarde viraria consultoria nasceu dentro do varejo.

Eu poderia citar pessoas, ambientes, a COVID-19... mas, no final, o erro era meu. Eu não me preparei, confiei e negociei errado. No final de 2022, mesmo com recordes de venda, a operação era insustentável. Eu não soube gerir riscos. A falência do meu nome e da empresa era certeza.

Tentei de todas as maneiras mantê-la de pé.

06

O pivô

Eu me pivotei, não a empresa.

Foi quando um side-job que eu já fazia, consultoria para empresas de amigos e familiares (nunca remunerada; na época eu via aquilo como um desafio mental estimulante que ainda me ensinava outras áreas), virou algo mais sério.

Comecei não só a tentar salvar a GEEKS: usei todo o ML que tinha desenvolvido para predição de demanda e de produtos, e as técnicas de empresa e processo, para ajudar outras empresas e outras pessoas. E fluiu.

Mas a GEEKS eu tinha perdido. Poderia ter pivotado a empresa, mas não seria a ideia dela, nem a minha. Eu sei que sou atraído por resolver o caos, mas existiam habilidades que ainda precisavam ser construídas, e que mais tarde, por causa dessa cicatriz, foram.

Não vejo a falência como fracasso. Fracasso seria ter desistido. Eu me pivotei, não a empresa: fui ajudar outros a não cometer os erros de gestão e análise que eu cometi. E comecei a me alegrar não com um faturamento milionário próprio, mas com o avanço dos sonhos dos outros.

Eu já conhecia modelos de linguagem, ML, Python. Nunca perdi a capacidade de estruturar sistemas e soluções. E com o GPT-3.5 eu vi que aquilo era o futuro. Mergulhei de cabeça: o que eu já fazia em consultoria, eu poderia multiplicar com desenvolvimento. E multiplicar também as empresas.

07

IA em produção

Medido pelos números de uma operação real.

Nessa jornada foram vários projetos e empresas: análise preditiva de mercado (um calcanhar de Aquiles: uma brecha no meu próprio sistema me custou dinheiro do próprio bolso, e segurança nunca mais foi item opcional em nada que eu construí), projetos jurídicos de análise de casos, automações com IA que economizavam meses, transformando fluxo de trabalho, segurança, faturamento e escala. Entrei de cabeça: criei mecanismos para desenvolvimento de software do mais alto grau e também softwares para soluções pequenas, integrando IA e automação onde fazia sentido.

Me juntei à Yorus, uma agência focada em marketing de performance, em 2025, pelo projeto do grupo Tauá Resorts; no começo de 2026 assumi como CTO, para somar ao marketing as soluções de tecnologia e IA. Esse capítulo se encerrou em agosto de 2026. Para o Tauá criamos uma IA que já passou de 293 mil conversas, resolvendo 87% delas sem intervenção humana, com resposta média de 2,1 segundos, e que apoiou as vendas do e-commerce numa black friday que faturou mais de 40 milhões de reais.

Criamos também software para incorporadoras, imobiliárias e o atendimento delas. Fiz mentoria de diretores de tecnologia em startups jurídicas e de hospitalidade. E entregamos uma integração de IA nativa na Salesforce, sem AgentForce, com apps únicos para o Tauá.

Tudo com a mesma régua de sempre: resultado medível em produção, não protótipo.

08

Em busca do próximo caos

Não só código: gente e negócio.

Hoje toco a Groundfast, uma prática de engenharia forward deployed de IA, e sigo aberto ao próximo caos: uma operação real, um problema mal definido, uma IA que precise se provar em produção. É aí que eu funciono melhor: entendendo de gente e de negócio antes do código, e saindo só quando o número aparece.

Se o seu caos é assim, fala comigo.